Os últimos dias redesenharam o tabuleiro político do Acre, mais do que uma simples troca de comando no Palácio Rio Branco, o que se vê é o início de uma nova fase em que a governadora Mailza Assis tenta consolidar autoridade própria, reorganizar o governo e, ao mesmo tempo, administrar a pressão de uma sucessão estadual que já começou antes do tempo.
Desde que assumiu o governo de forma definitiva no começo de abril, Mailza passou a acelerar mudanças internas, definir prioridades para os primeiros 100 dias e promover uma recomposição administrativa em áreas estratégicas. A movimentação inclui alterações em secretarias, autarquias e setores sensíveis da máquina pública, como Indústria, Polícia Civil, OCA e Saúde, numa tentativa clara de demonstrar que, embora tenha sido vice, sua gestão não pretende apenas repetir o modelo anterior sem ajustes.
Esse processo, porém, não ocorre sem ruídos. Parte do noticiário local tem tratado as trocas como uma “limpa” administrativa e como sinal de disputa por espaço dentro da base governista.
Ao mesmo tempo, Mailza tenta combinar a agenda política com entregas administrativas. Nos últimos dias, o governo buscou dar visibilidade a ações de gestão, como a definição de metas prioritárias e o anúncio de obras no centro de Rio Branco, numa estratégia que tenta associar a nova fase do Executivo a presença, comando e agenda positiva. É um movimento importante porque a governadora precisa provar, rapidamente, que não ocupa apenas a cadeira, mas exerce de fato o poder.
Outro fato de forte peso político foi a indicação, aprovação e nomeação de Mário Sérgio Neri de Oliveira para o cargo de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. O nome foi sabatinado e aprovado pela Aleac e, em seguida, oficializado por Mailza. Na prática, além do rito institucional, o episódio reforça a leitura de que o governo atua para consolidar posições em espaços estratégicos do Estado, ampliando sua influência num momento em que o controle político da máquina passa a ser ainda mais decisivo para a disputa de 2026.
Mas o xadrez eleitoral também já se mexe fora do Palácio. O campo adversário ou não totalmente alinhado ao governo mostra sinais de reorganização. Nos bastidores e no noticiário político, a sucessão estadual já aparece ancorada em três polos mais visíveis: Mailza Assis, o senador Alan Rick e o ex-prefeito Tião Bocalom. Pesquisa divulgada no início do mês colocou Alan na liderança das intenções de voto, enquanto alianças recentes indicam que ele tenta ampliar sua base com o apoio do PSD de Sérgio Petecão.
Na mesma direção, a notícia de que MDB e PL decidiram atuar em bloco mostra que há incômodo com a hegemonia do grupo governista e disposição de construir uma frente capaz de enfrentar a estrutura hoje concentrada em torno da federação ligada ao poder estadual. Isso significa que a eleição de 2026, no Acre, tende a ser menos uma disputa entre governo e oposição clássica e mais uma guerra entre várias direitas, com fissuras internas, alianças pragmáticas e disputa por lideranças regionais. Essa é uma inferência jornalística minha a partir dos movimentos relatados pelas fontes.
Nesse cenário, Gladson Cameli continua sendo peça central mesmo fora do cargo. O processo que tramita no STJ segue afetando o ambiente político local. O tribunal já havia indicado no começo do ano que a ação penal contra o ex-governador estava entre os julgamentos relevantes de 2026, e agora o caso voltou ao centro do debate após notícia de retirada de pauta e após a defesa usar decisão do ministro André Mendonça, no STF, que afastou provas da ação, para sustentar tese de possível anulação do julgamento.
Mailza, inclusive, comentou publicamente que espera a absolvição de Gladson, o que mostra como o destino judicial do ex-governador continua ligado ao destino político do grupo governista. Em outras palavras: embora o Acre tenha formalmente uma nova governadora, o sistema político ainda orbita em torno de duas perguntas maiores, até onde vai a autonomia de Mailza e quanto o peso de Gladson continuará influenciando alianças, candidaturas e decisões internas.
O resumo do momento é direto: o Acre vive uma transição que ainda não terminou. Mailza assumiu, mas ainda trabalha para transformar posse em liderança consolidada. A base aliada se reorganiza por dentro. Os adversários se movimentam por fora. E o processo de Gladson mantém o ambiente político em tensão permanente. Nos bastidores, 2026 já começou e começou antes de o novo governo completar sequer duas semanas com marca própria.
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